TECNOLOGIA, DESIGN E INOVAÇÃO: EIXOS ESTRATÉGICOS PARA UM DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL*

O advento do digital alterou o panorama e o negócio associados aos media, modificando de forma profunda intervenientes, parceiros e processos. Porém, as tecnologias por si só não transformam a sociedade: são utilizadas pelas pessoas nos seus contextos sociais, económicos e políticos, criando uma nova comunidade local e global. O papel das tecnologias torna-se, assim, essencialmente o de mediador, o que é ainda reforçado na transição para a sociedade do conhecimento.

O conhecimento científico-tecnológico, a educação, a cultura, e as inovações, no actual cenário globalizado, surgem como importantes motores da transformação dos países. São essenciais ao ganho e manutenção da competitividade das empresas, à modernização do Estado e ao desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento, assim entendido, é um processo em contínuo aperfeiçoamento, envolvendo múltiplas dimensões – económica, social, ambiental e política.

Tecnologias da Informação e Comunicação

O domínio das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) passou a ser condição necessária tanto para o sucesso das actividades económico-sociais como para o bem-estar dos cidadãos. De igual forma, é essencial para o avanço e a difusão do conhecimento científico e tecnológico. Torna-se, assim, imprescindível não só traçar estratégias de acção que visem o aproveitamento das condições criadas pela janela de oportunidades surgida com a introdução das TICs, como também procurar formas que possam contribuir para uma maior justiça e igualdade social . Em Cabo Verde, país favorecido por factores diversos, é certo, as aplicações das TICs nas áreas da governação electrónica, educação e gestão de empresas implementadas nos últimos anos, assim como os avanços assinaláveis neste sector, têm posicionando o arquipélago entre os mais avançados neste domínio e catapultado Cabo Verde para o ranking dos melhores na sua sub-região. No âmbito dos serviços de governação electrónica é de realçar que a partilha das melhores práticas poderá funcionar como uma espécie de alavanca para o sector e consequentemente para o desenvolvimento sustentável. Porém, isso não basta. Há ainda muitas fragilidades não só a nível da educação e da inclusão digital, como também a nível da justiça e igualdade sociais, com contrastes cada vez mais marcantes na nossa sociedade. Não podemos esquecer que grande parte da população se mantém ainda à margem do progresso social e económico e usufrui muito pouco dos benefícios das Tecnologias de Informação e Comunicação.

O Design e a Inovação como ferramentas de construção do futuro

Encontramo-nos numa nova era. A da economia criativa que surge como substituta da desindustrialização. Neste novo cenário, o design emerge como ferramenta de desenvolvimento sustentável e uma das poucas disciplinas capacitadas para resolver os complexos problemas do mundo actual. Sendo um conceito amplo, o design é sobretudo uma área multidisciplinar, de carácter projectual. Os designers podem, assim, ser definidos como pensadores que projectam, que buscam soluções.

Há uma estreita aliança entre design e inovação. Não existe design sem inovação nem inovação sem design. A inovação surge como uma das contribuições mais determinantes na busca de um desenvolvimento sustentável efectivo nas suas múltiplas dimensões. Trata-se de um processo complexo, interactivo e não-linear que resulta da interacção das vivências e da cultura de pessoas e instituições, visando repensar a realidade local para a construção de um futuro melhor.

Através da inovação tecnológica geram-se mudanças que não se relacionam apenas com questões de ordem técnico-científica, mas apresentam também dimensões de ordem política, económica e sociocultural. A inovação muda a dinâmica da sociedade. Enquanto processo de transformação de conhecimento em riqueza, que tem a educação como fundamento, constituí o principal motor do processo de desenvolvimento de qualquer país.

O papel das universidades enquanto centros de produção do conhecimento

As universidades, enquanto polos de excelência do conhecimento, devem ter um papel essencial no processo de desenvolvimento sustentável. Actualmente, estas são confrontadas com o imperativo de se moldarem no sentido de responder a novas necessidades de educação e de formação. Neste contexto, a produção de conhecimento nas universidades e as perspectivas da sua aplicação a nível empresarial exigem um diálogo mais eficiente e produtiva  entre os dois actores.

A Universidade de Cabo Verde, através do seu Departamento de Cência e Tecnologia, organizou, de 07 a 11 de Maio de 2012, a “Semana de Tecnologia Informática e Multimédia -TIM 2012”. Esta consistiu num conjunto de actividades como conferências, palestras, exposições e mostra tecnológica, visando um intercâmbio profícuo entre o mundo empresarial ligado às tecnologias e o mundo académico.

A iniciativa pretendeu ainda valorizar e promover o conhecimento, a  investigação e o mercado das TICs. Ao longo de uma semana, vários investigadores, docentes e especialistas de diversas empresas e instituições estiveram reunidos no seio da academia para debater não só o estado actual do sector das TICs em Cabo Verde, como também perspectivar o seu futuro. As empresas e instituições convidadas apresentaram produtos e serviços e puderam demonstrar aquilo que de mais inovador têm trazido para o mercado. Por outro lado, os alunos tiveram a oportunidade de expor os seus trabalhos e dar o seu contributo neste intercâmbio.

Temáticas como Aplicações Móveis, Governação Electrónica, Smart Technology, Tecnologias Audiovisuais e Multimédia, Design e Inovação, foram amplamente discutidas e debatidas. A semana terminou com balanço positivo demostrando a importância destes eventos no espaço académico. É fundamental que o Ensino Superior possa acompanhar a rápida evolução do conhecimento, que exige uma formação ampla e flexível.

Embora já muito se tenha feito, há ainda um longo caminho a percorrer. A tecnologia, o design e a inovação só poderão ser, de facto, eixos estratégicos para o desenvolvimento sustentável em Cabo Verde, se se apostar fortemente na qualidade do ensino; na formação e qualificação de docentes e investigadores; em fundos de apoio à investigação; na implementação de um quadro legislativo em matéria de inovação e na promoção do conhecimento e prática da inovação. De igual modo, não poderá ser descurada a aposta na  inclusão digital, no crescimento equitativo, na justiça e igualdade sociais, e num desevolvimento socioeconómico que possa beneficiar todos os caboverdianos.

* Artigo publicado no Jornal Expresso das Ilhas (edição impressa nº 547 de 23/05/2012).

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